
"Onde há pessoas, há conflitos". Por isso deve-se partir da premissa que "gerir pessoas implica sempre, em maior ou menor medida, gerir também tais conflitos". Desde este ponto de vista, o principal propósito da Direção duma empresa será implantar e levar a cabo práticas que minimizem o aparecimento de conflitos internos. Neste post, partilharei com vocês alguns dos costumes que melhores resultados deram ao longo dos 22 anos em que estive à frente da Direção Geral de canais de distribuição. Como não me canso de repetir, os conselhos ou práticas que lerão a seguir foram aplicados unicamente no sector da grande distribuiçao; pelo que talvez possam só resultar úteis neste contexto e não em outro. De todos os modos, estimo conveniente transladar a minha experiência porque tenho a certeza de que, ao menos, os Diretivos deste sector que utilizem este enfoque evitarão alguns conflitos dentro das suas organizações.
Deixe claro que todos "podem"
Na maioria das grandes empresas está presente uma prática, embora não escrita, que aponta a que os diretores de determinadas áreas funcionais, como finanças, operações ou marketing, têm maiores possibilidades ou oportunidades para chegarem a ser diretores-gerais, que os de outras áreas como a de RR.HH. ou jurídica. Esta prática cultural provoca geralmente tensões entre tais áreas. Pessoalmente, eu sempre gostei de criar empresas em que todos, independentemente da linha de negócio, pudessem ascender. No setor da distribuição, além de ser muito bom na sua área funcional, é necessário conhecer o negócio a fundo e, como o lógico é que todo mundo é muito bom no seu trabalho, ao final costuma chegar aquele que possui mais conhecimento e implicação no negócio desenvolvido. E também o que mais o vive.
Escape às conversas entre dois
Na minha carreira profissional como diretor e agora como consultor sempre tentei ter presente um máximo: "Se não trouxer a solução, torna-se parte do problema". Esta adaptação da frase original de "Les Miserables" ajudou-me não só a impedir as pessoas de entrar no meu gabinete para reclamar sobre outros, mas também para manter as pessoas focadas no seu trabalho. A este respeito, eu sempre tentei afastar-me das conversas entre dois, onde se falou de um terceiro que não estava presente. É claro que nenhum problema deve surgir e tornar-se entrincheirado, porque seria pior. Embora eu acredite que a maneira apropriada de lidar com elas deve ser através de reuniões, tanto dentro como fora do escritório, onde estejam presentes todas as partes envolvidas. A minha maneira de lidar com esses conflitos foi inevitável, na medida do possível, pela realização de atividades de grupo com todos os diretivos. Além disso, essas propostas foram de grande ajuda para fazer esses profissionais adquirirem uma mentalidade real do negócio que nos implicava a todos: as nossas lojas.
Faço-os perceber qual é o verdadeiro negócio
Em relação ao anterior, uma convicção pessoal que sempre tive é que quando existem atritos num canal de distribuição é porque os computadores estão muito longe do ponto de venda. Há aqueles que me chamaram lunático por isso, mas eu sempre gostei de que todos os diretores e os profissionais da central passassem parte do seu tempo de trabalho nos pontos de distribuição como empregados. "Um dia de trabalho num restaurante", por exemplo, foi uma das iniciativas postas em prática quando trabalhei como Diretor Executivo no Burger King em Espanha e no sul da Europa. E também para os 40 executivos mais altos da empresa com outras atividades de teambuilding que batizámos de "Uma semana na estrada", que consistia em passar sete dias visitando e trabalhando em restaurantes. Estas iniciativas permitem que os funcionários da central se tornem conscientes de que todos somos parte de um único negócio e ajuda-os a ser mais flexíveis e solidários com o resto. Por exemplo, desde a área de finanças estão a começar a entender porque não se consegue fechar a caixa no tempo acordado depois de enfrentar a hora de ponta, etc. Claro que nada disso vai funcionar se, como eu disse no meu primeiro post, a Direção Geral "não consegue liderar dando o exemplo". Lembro-me duma história neste sentido: um headhunter há estado muito tempo tentando concertar um encontro comigo, mas eu tinha uma agenda cheia, pelo que sugeri que deveria ficar para comer. Quando me perguntou onde, citei o Burger King da Gran Via de Hortaleza. Naquele dia eu tinha que trabalhar lá; então quando ele chego, eu estava a esfregar o corredor. Ainda me lembro de seu rosto de espanto quando me virei para ele e lhe disse quem era.
Em suma, a aplicação destas três máximas, por parte da Direção-Geral dum canal de distribuição, não só minimiza a concorrência, mas também assegura que todos conheçam e adorei este negócio em si, além de sua área funcional. Vale a pena tentar.